| |
A miscigenação consiste na mistura de raças, de povos de diferentes etnias, ou seja, relações inter-raciais. Foi em 4 de abril de 1755 que, D. José, rei de Portugal, assina decreto que autoriza a miscigenação de portugueses com índios. A miscigenação consiste na mistura de raças, de povos de diferentes etnias, ou seja, relações inter-raciais. Foi em 4 de abril de 1755 que, D. José, rei de Portugal, assina decreto que autoriza a miscigenação de portugueses com índios
Poucos países no mundo tiveram a rica interação de diferentes "raças" e etnias como ocorreu no Brasil. Desde a chegada dos primeiros colonos portugueses assistiu-se à miscigenação em massa com os índios. Décadas depois, com a chegada de escravos negros, formou-se uma população trí-híbrida. Os portugueses já trouxeram para o Brasil séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos. Embora os portugueses sejam basicamente uma população européia, 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus deixaram um importante legado a este povo. Um curioso estudo recente aponta que entre 25 e 30% dos colonos portugueses no Brasil eram, de fato, de origem judaica. Os índios brasileiros não apresentavam relevantes diferenças genéticas entre si: seriam todos descendentes do primeiro grupo de caçadores asiáticos que chegaram às Américas, há 60 mil anos. Porém, culturalmente falando, os aborígenes brasileiros estavam inseridos numa diversidade de nações com línguas e costumes distintos. A chegada dos colonos portugueses, homens na maioria, culminou em relações e concubinatos com as índias. Os escravos africanos trazidos ao Brasil pertenciam a um leque enorme de etnias e nações. A maior parte eram bantos, originários de Angola, Congo e Moçambique. Porém, em lugares como a Bahia, predominaram os escravos da região da Nigéria, Daomé e Costa da Mina. Alguns escravos islâmicos eram alfabetizados em árabe e já traziam para o Brasil uma rica bagagem cultural. Miscigenaram-se com os portugueses e índios, formando a raiz étnica do povo brasileiro. A tentativa do governo brasileiro em "branquear" a população marcou o século XIX. O governo libertou os descendentes de africanos, mas não deu assistência social aos ex-escravos, que foram abandonados à própria sorte. O
escravo seria substituído pelo imigrante europeu: entre 1870 e 1953, entraram no Brasil cerca de 5,5 milhões de imigrantes, dentre os quais havia uma maioria de italianos, os preferidos do governo, por serem brancos e latinos. O governo brasileiro ambicionava que os imigrantes se casassem com mestiços e negros, para diluir a raça negra na população brasileira. A famosa pintura "Redenção
do Can", feita em 1895 por Modesto Brocos y Gómez, sintetiza a idéia pairante na época: através da miscigenação, os brasileiros ficariam a cada geração mais brancos. A entrada em massa de imigrantes europeus no Sul e Sudeste do Brasil mudou relativamente a demografia do País. Em poucas décadas verificou-se que a população de origem "negra e mestiça" foi superada pela população "branca". O casamento entre imigrantes europeus e brasileiros apenas alterou o fenótipo. Geneticamente, a população brasileira continua mestiça. Nos censos brasileiros, a maioria da população brasileira continua se classificando como branca (49,9%), uma parcela considerável como parda (43,2%) e um número muito reduzido como preta (6,3%). Fato que, geneticamente, o Brasil tem uma esmagadora maioria mestiça, e não branca como mostram os censos: 86% dos brasileiros têm mais de 10% de genes africanos. Ou seja, apenas 14% dos brasileiros são geneticamente brancos, número bem inferior aos quase 50% dos censos do IBGE. A tentativa de grande parte dos brasileiros pardos em se classificarem como brancos e brasileiros negros em se classificarem como pardos no censo é fruto de um racismo velado enraizado na cultura do País, onde a mídia ainda impõe um padrão de beleza ariano. Na obra Casa-Grande e Senzala, escrevera o
antropólogo Gilberto Freyre:
"Todo brasileiro, mesmo o alvo, de
cabelo louro, traz na alma, quando não na
alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a
pinta, do indígena e/ou do negro." —
Gilberto Freyre
Contra o mito da "nação
bicolor"
As falácias da política de cotas raciais na
análise demolidora de Ali Kamel
Operários, de Tarsila do Amaral: um retrato
da miscigenação brasileira

No início dos anos 1930, às vésperas da
ascensão do nazismo, as posições pacifistas
do físico alemão Albert Einstein geravam
rancor entre seus compatriotas. Com o título
de 100 Autores contra Einstein, um livro
coletivo foi publicado para atacar suas
idéias. Einstein respondeu com sua
inteligência característica: "Por que 100
autores? Se eu estivesse errado, um só
bastaria". A anedota merece ser lembrada a
propósito da recente guerra de
abaixo-assinados gerada pela Lei de Cotas e
pelo Estatuto da Igualdade Racial – projetos
de lei que visam a estabelecer políticas de
"ação afirmativa" para favorecer os negros,
com cotas raciais nas universidades e no
funcionalismo público. Há pouco mais de um
mês, um manifesto contrário ao estatuto,
assinado por 114 intelectuais, foi entregue
ao Congresso. Os movimentos sociais que
apóiam as cotas responderam de bate-pronto
com outro abaixo-assinado, este com 330
signatários. Agora, quando a poeira da
discussão já começava a assentar (e a
votação do estatuto na Câmara dos Deputados
ficou para o ano que vem), o diretor
executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali
Kamel, lança um livro fundamental para
entender a questão. Não Somos Racistas (Nova
Fronteira; 144 páginas; 22 reais) demonstra
que as chamadas "ações afirmativas" são uma
resposta irracional para um problema
fictício – o racismo institucional, que não
vigora no Brasil. Um só autor basta para
provar que 330 estão errados.
O engano fundamental das políticas raciais
estaria, de acordo com Kamel, em considerar
que a sociedade brasileira é
constitutivamente racista. Existe racismo no
Brasil, mas ele não é um dado predominante
da cultura nacional e não conta com aval de
nenhuma instituição pública. Ao exigir, por
exemplo, que certidões de nascimento,
prontuários médicos e outros documentos
oficiais informem a raça de seu portador, o
Estatuto da Igualdade Racial está na verdade
desprezando uma longa tradição de mistura e
convivência em prol de categorias raciais
estanques e estúpidas. É, na prática, um
exercício de discriminação racial,
sancionado pelo Estado.
A miscigenação, dado central da sociedade
brasileira, é o fato recalcado pelos
defensores das cotas. A lógica beligerante
implícita do estatuto e da lei de cotas é de
que existem dois grandes grupos no Brasil:
os brancos, opressores, e os negros,
oprimidos. Isso se revela até no uso das
estatísticas do IBGE – e um dos pontos
fortes de Não Somos Racistas é a clareza com
que o autor (que, além de jornalista, tem
formação em ciências sociais) destrinça
números para desmontar a falácia das cotas.
Nas contas dos que defendem medidas do
gênero, os negros são 48% da população, mas
representam 66% dos brasileiros pobres.
Kamel parte da mesma fonte – a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílio, do IBGE –
para observar que, na verdade, os negros são
uma minoria (veja o quadro). Os filhos da
miscigenação, definidos como "pardos", são
mais numerosos e têm um lugar ambíguo no
discurso racial. Sendo, em geral,
descendentes de africanos e de europeus, por
que deveriam ser considerados apenas
"negros"? Pardos e negros, somados,
representam, sim, a maioria dos pobres
brasileiros – em números absolutos, 38
milhões. Mas o contingente de brancos pobres
também é enorme. Como justificar uma
política de avanço "racial" que deixaria
para trás a massa de 19 milhões de brancos
pobres? Os mulatos mais claros serão
favorecidos ou esquecidos por essas
políticas de discriminação? O Estatuto da
Igualdade Racial, como se vê, é uma receita
para que os cidadãos brasileiros recebam
tratamento desigual por parte do Estado. A
pobreza, argumenta Kamel, é a chaga social
renitente do Brasil. Ela não discrimina:
atinge brancos, negros, mulatos. "Negros e
pardos são maioria entre os pobres porque o
nosso modelo econômico foi sempre
concentrador de renda: quem foi pobre (e os
escravos, por definição, não tinham posses)
esteve fadado a continuar pobre", observa
Kamel. Negros, brancos e pardos, diz o
autor, só sairão da pobreza por força de
políticas que incluam a todos –
especialmente com investimentos consistentes
em educação.
Kamel também é muito eficiente ao traçar o
histórico das equivocadas políticas raciais
debatidas hoje. A idéia de que o Brasil é
racista foi, de acordo com o autor,
inventada a partir dos anos 1950 por
cientistas sociais como Florestan Fernandes
– e Fernando Henrique Cardoso. Foi em
consonância com as idéias expostas na obra
do sociólogo – como Capitalismo e Escravidão
no Brasil Meridional – que o presidente
Fernando Henrique implementou as primeiras
políticas de "ação afirmativa" no
funcionalismo público. A distorção que Kamel
chama de "nação bicolor" teve início ali, e
ganhou uma continuidade "canhestra" no
governo Lula. Caberá aos deputados eleitos
neste ano dar um ponto final nessa escalada,
recusando o Estatuto da Igualdade Racial.
Seria salutar que todos eles lessem Não
Somos Racistas.


Leia trecho de Não Somos Racistas,
de Ali Kamel
“Foi um movimento lento. Surgiu na academia,
entre alguns sociólogos na década de 1950 e,
aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar
política oficial de governo. Mergulhado no
trabalho jornalístico diário, quando me dei
conta do fenômeno levei um susto. Mais uma
vez tive a prova de que os grandes estragos
começam assim: no início, não se dá atenção,
acreditando-se que as convicções em
contrário são tão grandes e arraigadas que o
mal não progredirá.
Quando acordamos, leva-se o susto. Eu levei.
E, imagino, muitos brasileiros devem também
ter se assustado: quer dizer então que somos
um povo racista? Minha reação instintiva foi
me rebelar contra isso. Em 2003, publiquei
no Globo um artigo cujo título dizia tudo:
"Não somos racistas."
Depois dele, publiquei outros tantos e,
hoje, vendo-os no conjunto, tenho a
consciência de que fui me dando conta do
estrago à medida que ia escrevendo. Escrevi
sempre na perspectiva de um jornalista, de
alguém especializado em ver o imediato das
coisas. Outros lutaram em seus campos,
sempre com muita propriedade. Gente como os
historiadores José Roberto Pinto de Góes,
Manolo Florentino, José Murilo de Carvalho e
Monica Grin, os antropólogos Yvonne Maggie,
Peter Fry e os sociólogos Marcos Chor Maio,
Ricardo Ventura e Demétrio Magnoli e o
jornalista Luis Nassif, entre tantos outros,
tentaram alertar a sociedade brasileira para
o perigo nos jornais, em artigos
especializados, em seminários e em livros.
Na perspectiva de jornalista, de alguém mais
próximo do cidadão comum, espantei-me diante
de algumas descobertas. Um exemplo, o
conceito de negro. Para mim, para o senso
comum, para as pessoas que andam pelas ruas,
negro era um sinônimo de preto. Nos
primeiros artigos, eu me debatia contra uma
leitura equivocada das estatísticas oficiais
acreditando nisso. Certo dia, caiu a ficha:
para as estatísticas, negros eram todos
aqueles que não eram brancos. Cafuzo,
mulato, mameluco, caboclo, escurinho,
moreno, marrom-bombom? Nada disso, agora ou
eram brancos ou eram negros. De repente, nós
que éramos orgulhosos da nossa miscigenação,
do nosso gradiente tão variado de cores,
fomos reduzidos a uma nação de brancos e
negros. Pior: uma nação de brancos e negros
onde os brancos oprimem os negros. Outro
susto: aquele país não era o meu.
O debate em torno de raças no Brasil sempre
foi intenso. Deixando de lado todo o debate
entre escravocratas e abolicionistas, o
século XX foi todo ele permeado por essa
discussão. Nas primeiras décadas do século
passado, o pensamento majoritário nas
ciências sociais era racista. Mas até ele
reconhecia que o Brasil era fruto da
miscigenação. O racismo era decorrente
justamente dessa constatação: para que o
país progredisse, diziam os sociólogos, era
preciso que se embranquecesse, diminuindo a
porção negra de nosso povo. Foi Gilberto
Freyre quem mais se destacou em se contrapor
a um pensamento tão abjeto como este.
Freyre não foi o autor do conceito de
"democracia racial", não foi ele quem cunhou
o termo, hoje tão combatido. Aliás, era
avesso a tal conceito, porque o que ele via
como realidade era a mestiçagem e não o
convívio sem conflito entre raças estanques.
Usou em discursos a expressão uma ou duas
vezes, a partir da década de 1960, mas
sempre como sinônimo de um modelo em que a
miscigenação prevalece. Jamais edulcorou a
escravidão. Casa grande e senzala, a
obra-prima de Freyre, dedica páginas e mais
páginas ao relato das atrocidades que se
fizeram contra os escravos. Está tudo ali,
todos os sofrimentos impostos aos escravos:
o trabalho desumano nas lavouras, as meninas
menores de 14 anos, virgens, violadas na
crença de que o estupro curaria a sífilis,
as mucamas que tinham os olhos furados e os
peitos dilacerados apenas por despertar os
ciúmes das senhoras de engenho. Freyre não
omite nada; expõe. É claro que também
reconhece no branco português uma
elasticidade, sem o que não poderia ter
havido mistura. É claro que descreve certo
congraçamento entre o elemento branco e o
negro.
Essas características de Casa grande e
senzala, no entanto, foram tão realçadas com
o decorrer do tempo que muitos hoje
acreditam, erradamente, que Freyre escondeu
os horrores da escravidão para fazer do
Brasil mais do que uma democracia racial, um
paraíso.
O papel de Freyre, porém, foi outro, muito
mais marcante. No debate com o pensamento
majoritário de então, o que Freyre fez foi
resgatar a importância do negro para a
construção de nossa identidade nacional,
para a construção da nossa cultura, do nosso
jeito de pensar, de agir e de falar. Ele
enalteceu a figura do negro, dando a ela sua
real dimensão, sua real importância. A nossa
miscigenação, concluímos depois de ler
Freyre, não é a nossa chaga, mas a nossa
principal virtude.
Hoje, quando vejo o Movimento Negro
depreciar Gilberto Freyre, detratando-o como
a um inimigo, fico tonto. Os ataques só
podem ser decorrentes de uma leitura
apressada, se é que decorrem mesmo de uma
leitura.
Como bem tem mostrado a antropóloga Yvonne
Maggie, a visão de Freyre coincidiu com o
ideal de nação expresso pelo movimento
modernista, que via na nossa mestiçagem a
nossa virtude. Num certo sentido, digo eu, a
antropofagia cultural só poderia ser mesmo
uma prática de uma nação que é em si uma
mistura de gentes diversas. Esse ideal de
nação saiu-se vitorioso e se consolidou em
nosso imaginário. Gostávamos de nos ver
assim, miscigenados. Gostávamos de não nos
reconhecer como racistas. Como diz Peter
Fry, a "democracia racial", longe de ser uma
realidade, era um alvo a ser buscado
permanentemente. Um ideal, portanto.
Isso jamais implicou deixar de admitir que
aqui no Brasil existia o racismo. É evidente
que ele existia e existe, porque onde há
homens reunidos há também todos os
sentimentos, os piores inclusive. Mas a
nação não somente não se queria assim como
sempre condenou o racismo. Aqui, após a
Abolição, nunca houve barreiras
institucionais a negros ou a qualquer outra
etnia. E para combater as manifestações
concretas do racismo - inevitáveis quando se
fala de seres humanos - criaram-se leis
rigorosas para punir os infratores, sendo a
Lei Afonso Arinos apenas a mais famosa
delas.
Mas a partir da década de 1950, certa
sociologia foi abandonando esse tipo de
raciocínio para começar a dividir o Brasil
entre brancos e não-brancos, um pulo para
chegar aos que hoje dividem o Brasil entre
brancos e negros, afirmando que negro é todo
aquele que não é branco. Nos trabalhos de
Florestan Fernandes, Fernando Henrique
Cardoso, Oracy Nogueira e, mais adiante,
Carlos Hasenbalg, se a idéia era "fazer
ciência", o resultado sempre foi uma ciência
engajada, a favor de negros explorados
contra brancos racistas. A idéia que jazia
por trás era que a imagem que tínhamos de
nós mesmos acabava por ser maléfica,
perversa com os negros. Era como se o ideal
de nação a que me referi tivesse como
objetivo o seu contrário: idealizar uma
nação sem racismo para melhor exercer o
racismo. O papel da ciência, "para o bem dos
negros", seria desmascarar isso, tirando o
véu da ideologia e substituindo-a pela
realidade do racismo. Esse raciocínio levava,
porém, ao paroxismo de permitir a suposição
de que um racismo explícito é melhor do que
um racismo envergonhado, esquecendo-se de
que o primeiro oprime sem pudor, enquanto o
segundo, muitas vezes, deixa de oprimir pelo
pudor.”
Fonte: Rev. Veja, Jerônimo Teixeira, ed.
1969, 16/08/2006.
|